Natureza e Equilíbrio Vital


  

– Concebemos perfeitamente que a vontade de Deus seja a causa primária, nisto como em tudo; porém, sabendo que os Espíritos exercem ação sobre a matéria e que são os agentes da vontade de Deus, perguntamos se alguns dentre eles não exercerão uma influência sobre os elementos para os agitar, acalmar ou dirigir?
– “Mas evidentemente. Nem poderia ser de outro modo. Deus não exerce ação
direta sobre a matéria. Ele encontra agentes dedicados em todos os graus da escala dos mundos.” (O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, Ed. FEB, questão 536b.)

   Dentre as várias perguntas e respostas que compõem a obra pilar do Espiritismo, as acima transcritas estão entre as mais intrigantes; entretanto, poucos dão ao assunto a devida importância ou atenção. O ensinamento é claro: há Espíritos cujas atribuições são a regulação dos fenômenos naturais, que, de uma forma ou de outra, refletirão nas condições de vida das populações por eles afetadas.
   Que os Espíritos controlam o clima não temos como duvidar; nestas ocasiões, como em todas as outras, a Ação Divina se faz presente por meio de seus emissários e com um objetivo precípuo, não como obra do acaso.
   Ao refletirmos mais demoradamente sobre este assunto somos levados a uma indagação: Os encarnados conseguem afetar o clima? Podemos realmente alterar a ordem natural?
   Para solucionarmos tal questionamento, vamos nos reportar novamente a O Livro dos Espíritos, à pergunta 741, e à parte da resposta que nos interessa: 741 – Dado é ao homem conjurar
os flagelos que o afligem? “[...] Muitos flagelos resultam da imprevidência do homem. À medida que adquire conhecimentos e experiência, ele os vai podendo conjurar, isto é, prevenir, se
lhes sabe pesquisar as causas.[...]” Ora, a resposta não possibilita dúvidas, há calamidades cuja causa advém da ação humana!
   Atualmente, assistimos alarmados às alterações climáticas inesperadas – apesar de há muito tempo anunciadas –, cujo resultado é espantosamente catastrófico.
   A energia dos furacões no Golfo do México (sul dos Estados Unidos, leste do México e Cuba), as intensas chuvas provocando inundações colossais na Índia e no sul da China, as ondas de calor extremo que atingiram a Europa Central, o avanço da desertificação na África e Ásia, a força crescente dos ventos no sul do Brasil, dentre tantos outros acontecimentos que apontam para uma rápida  alteração da ordem natural.
   Alguns pesquisadores mais céticos argumentam que tais fenômenos sempre ocorreram; porém, o que preocupa é a sua intensificação progressiva, que pode ser notada ano a ano, e com resultados cada vez mais desastrosos.
   Meteorologistas e pesquisadores de diversas áreas buscam respostas, baseados na observação metódica e na comparação de registros anteriores, e, apesar da oposição de alguns setores da economia mundial, concluem: uma das causas principais da brusca alteração climática é a ação humana desordenada. O meio que propicia tais mudanças é o lançamento de gases e resíduos – principalmente carbono – na atmosfera e na água, provenientes das chaminés e esgotos de indústrias, dos escapamentos dos veículos e do lixo doméstico, situação agravada pelo desmatamento acelerado das áreas de floresta em todo o Planeta.
   O balanço da situação:
_ Surgimento e aumento de “buracos” na camada de ozônio, elemento que nos protege da ação nociva dos variados tipos de radiação solar.
_ Aumento significativo do “efeito estufa”, com o conseqüente crescimento da temperatura global. Esta alteração na temperatura acelera a diminuição da camada de gelo nos pólos, o que aumenta o nível dos oceanos, provocando a invasão, pelas águas, das regiões costeiras e também intensifica o volume das chuvas e a força dos ventos em todo o globo.
_ Esgotamento acelerado da água potável em todos os continentes, situação que dispensa comentários pela óbvia gravidade.
_ Aparecimento de nuvens de poluentes – particularmente a Nuvem Asiática, uma espécie de concentrado químico gasoso que se mantém flutuando sobre uma enorme região do Oriente.

   Como objeto para reflexão, relembremos as afirmações dos Espíritos Superiores, quando responderam sobre a finalidade dos grandes fenômenos e a sua relação com o homem:
“– Às vezes têm, como imediata razão de ser, o homem. Na maioria das casos, entretanto, têm por único motivo o restabelecimento do equilíbrio e da harmonia das forças físicas da Natureza.”
(Resposta à questão 536a de O Livro dos Espíritos.)

   A resposta é clara: a Natureza busca invariavelmente o equilíbrio e a harmonia...
   Estaria, então, a Humanidade fadada ao auto-extermínio? Tal é o argumento de alguns alarmistas que “profetizam” inverdades em busca de sensacionalismo – apesar de que muitas vezes cumprem o papel de despertar consciências menos sensíveis ao problema.
Podemos ficar tranqüilos sobre esta questão. Não está ao alcance de nosso livre-arbítrio decretar o fim da civilização ou do mundo.
   É verdade que os recursos naturais, e o próprio Planeta, estão à nossa disposição para deles fazermos uso. Este uso é o que impulsiona o progresso intelectual; e, como conseqüência, o moral; mas, não está ao nosso alcance dispormos da Terra a nosso bel-prazer.
   Em situações tão graves como esta, sempre estamos sujeitos ao binômio liberdade–responsabilidade, ou seja, nossa   capacidade de agir está na razão direta de nossa condição para reconhecer os limites do que é lícito, necessário e viável, e a eles nos submetermos.
   Temos que recordar que estamos sujeitos à reparação de nossos erros e desequilíbrios; é esta a situação em que vivemos: a Natureza reage contra nossas repetidas agressões; ao reagir, impõe-nos os desastres naturais, que resultam em sofrimento
generalizado, e é este sofrimento que nos obriga a buscar soluções menos traumáticas. É o progresso sendo realizado pela via mais tortuosa.
   Parece-nos óbvio que a força destruidora dos fenômenos naturais se intensificará, resultando em dificuldades e desafios cada vez maiores para as civilizações vindouras; tudo isto ocorrerá em razão da busca pelo necessário equilíbrio que sustentará a marcha progressiva do espírito humano.
   Nossa preocupação deve ser a de colaborarmos o máximo possível, em ações individuais, ou comunitárias, utilizando os recursos de maneira racional e equilibrada. Todos nós temos um compromisso com o futuro e com os que nos  substituirão; e estes, por sua vez, nos receberão provavelmente, de volta à Terra, cumprindo o ciclo divino da evolução
espiritual.
   Afirma Kardec em A Gênese:  “A geração que desaparece levará consigo seus erros e prejuízos; a geração que surge, retemperada em fonte mais pura, imbuída de idéias mais sãs, imprimirá ao mundo ascensional movimento, no sentido do progresso moral que assinalará a nova fase da evolução humana.” (Capítulo XVIII, item 20, Ed. FEB.)

 


LICURGO SOARES DE LACERDA FILHO
Revista "Reformador" edição: 2.128  julho/06

VOLTAR PARA ARTIGOS